Existem momentos nas nossas vidas que, quer seja pela aparência, quer pelo impacto que tem, nos marcam assim de uma forma quase surreal, como um trail retirado de um filme.
Hoje fui fazer uma coisa que amo imenso fazer, pescar. Agarrei nas tralhas e no herdeiro do trono e lá foram eles rumo aos moinhos da Tramaga, uma zona com comportas na ribeira do Sor.
Estavam reunidas todas as condições para ser mais uma bela tarde de pescaria, que não é mais nem menos para mim do que um pouco de higiene mental.
Eu gosto mais de pescar do lado sul da ribeira, menos gente, mais espaço, enfim... o final da tarde na ribeira trouxe consigo uma luminosidade diferente. O céu explodiu em tons de amarelo torrado, envolvendo umas quantas nuvens de tonalidades cinzentas. O reflexo desta cena na água da ribeira, provocava um espelho de água especial, alternando entre o claro do sol a pôr-se, e o escuro das nuvens que se aproximavam de sul.
Senti no ar que algo estava para aparecer.
Fui ao carro levar o artista mais novo e, enquanto lhe preparava duas sandes de fiambre e lhas entregava, tive a sensação de um clarão rapidamente ter enchido o ar. "Será trovoada?" - pensei. Tive a resposta com som poderoso do ribombar do trovão que se lhe seguiu. Estava muito perto.
Como já tinham caído umas gotas, regozijei com a possibilidade de poder pescar à chuva. Que loucura, juntar estes dois factores no mesmo dia, ainda por cima com esta temperatura tão amena... Apressei-me a passar a ribeira para o outro lado e peguei na cana de 7 metros que havia deixado estendida na relva enquanto fui ao carro.
Fiz o arremeço firme e fiquei na expectativa do que estaria para vir.
Mas nunca pensei...
Caíam umas gotas de água e o vento tinha-se transformado numa suave brisa que permitia ver melhor a configuração dos remoínhos maravilhosamente elaborados pela corrente da ribeira, quando de repente por trás de mim ouvi as copas dos altos ciprestes entoarem um som carregado e conhecido de gotas de água mais grossas. "Vem aí uma chuvada" -pensei. O céu tinha-se escurecido e de quando em quando era clareado pelos relâmpagos da trovoada que se avizinhava. As gotas ficaram maiores e mais intensas. Mas... espera aí, não é chuva... é granizo! Uau, de repente o céu desabou em goteiras enormes e pedras de gelo. E agora?
Assumi uma postura de pescador corajoso, afinal não seria uma chuvita que me iria cortar o barato. Pois sim... Fiquei encharcado em menos de nada e decidi encetar uma fuga estratégica até aos moínhos que distavam uns bons 100 metros do local onde me encontrava.
Quando consegui passar pela trilha lamacenta e as rochas escorregadias, cheguei ao moínho de saída.É um espaço escuro e recôndito. Já estava ocupado por um colega de infortúnio que, após exteriorisar a sua frustração em meia dúzia de palavrões lancinantes aos ouvidos, conseguiu dar-me coragem para saír a correr, atravessar a ribeira e subir a encosta antes de me sentar no meu carro, já completamente encharcado.
Os minutos que se seguiram fizeram-me pensar naquele povo gaulês que a única coisa que temiam era que o céu lhes caísse em cima da cabeça. Devia ser isso que eles sentiriam se estivessem aqui.
Depois da enchurrada, voltou de novo o bom tempo e fiz-me de novo ao caminho, agora mais perigoso, e voltei a empunhar a minha espada de 7 metros durante o tempo que a luz que se ia desvanecendo me deixou.
Surreal.